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Polícia 24/7: novos tempos! Confira o relato de um delegado no primeiro plantão durante a pandemia

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23 de março, 2020

Relato de Marcelo Cavalcante, delegado plantonista do 2° DP de Guaratinguetá

Ontem foi meu primeiro plantão noturno com este novo acessório (máscara para proteção). Engraçado, depois de tanto tempo, incluir este novo acessório. Novos tempos, tempos sombrios!

Fiquei pensando se já chegava no plantão com a máscara, ou se a colocaria durante as atividades, avaliando momento a momento.

Chegando no plantão tanto minha escrivã quanto o investigador usavam as máscaras. Da porta do plantão tive meu primeiro impasse da noite: “o que aconteceu?” Ambos rapidamente disseram que estavam resfriados, mas que nada tinha a ver com o famigerado coronavírus.

Minha primeira percepção foi ver que as orientações dadas na televisão estavam longe do cumprimento no Brasil real. As ruas da minha cidade ainda tinham uma dinâmica própria com circulação de veículos e pessoas. No plantão, as pessoas ainda procurando a unidade para registros. Lembro que tinha acabado de saber pela televisão que o contágio já era comunitário em todo Brasil. Fico refletindo que o plantão na delegacia é muito vulnerável.

Mas logo recebo uma ligação de um local de homicídio. Surge outro impasse: meu investigador (recém saído de uma dengue) usa máscara, pois está resfriado. Resolvo colocar minha máscara e opto por me sentar no banco de trás da viatura, com vidro aberto para evitar contágio. Dirigindo-me ao local fico pensativo. As pessoas nos bairros periféricos continuam nas ruas, vejo carros de lanches aglomerados.

Chegando na cena do crime, duas viaturas com policiais militares realizam a preservação do local. Chove nesta noite. Resolvo tirar a máscara, pois estava ao ar livre. Enfim, respirando ar puro! Me aproximo dos policiais, que não se aproximam muito e prestam continência. Eles fazem os relatos a distância. Há um desconforto no ar. A equipe de perícia chega ao local, e tanto a perita quanto o fotógrafo também estão de máscaras. Faço o relato do acontecido, mantendo distância. E fico observando os trabalhos, quando ambos tiram as máscaras. São vencidos pelo incômodo!

Realizado o trabalho, volto à viatura e, novamente, banco de trás e máscara. Sigo pensando nos meus colegas (delegados plantonistas e suas equipes) e em como estamos expostos! Penso nos policiais militares que também estão expostos nos patrulhamentos. E vejo a cidade ainda com sua dinâmica própria. Penso nas operadoras de caixas em supermercados, o quão expostas estão e ainda testemunham o corre-corre sem limites nos supermercados, e, por fim, penso nos profissionais da saúde. Como deve ser o plantão deles? O que ainda está por vir?

Chego no plantão para registro, tiro a máscara, passo álcool nas mãos, no teclado do computador, na caneta e meus óculos. Durante o registro chega uma guarnição da PM trazendo o autor de um roubo. Ele tosse. Tensão no DP! Colocamos a máscara para evitar contágio. Aparentemente, apenas uma tosse. A noite avança. Mais um boletim de roubo complicado, com vítima e marido no DP! Mais contato direto. Um plantão não permite o distanciamento recomendado.

Com o fim das ocorrências, um silêncio toma conta da equipe. Sabemos que é apenas o primeiro plantão nesta pandemia. As ruas, em razão do adiantado das horas, estão em silêncio. Um silêncio ensurdecedor.

Sinto o dever cumprido. Sinto orgulho. Minha instituição, a Polícia Civil, não para. São 24 horas no ar! Serei substituído por um colega e o trabalho permanecerá sendo feito. Dirijo-me para casa, e penso nos colegas que vão entrar no plantão, nos PM’s, nas operadoras de caixas dos supermercados e nos demais agentes de segurança.

Em casa, vou direto ao banheiro e tomo um banho, pensando em lavar a alma! Deito me sentindo como um soldado que foi para guerra e voltou vivo. Contudo, não sei em que condições voltei. Nesta guerra o inimigo é invisível. Posso ser um ‘Cavalo de Tróia’ para ele. Tenho pais com mais de 70 anos e sogro com 95 anos. Não consigo dormir.

Fica aqui meu relato e homenagem aos servidores e prestadores de serviço que estão trabalhando durante esta pandemia. Estamos juntos!

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