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‘Balde de água fria’, diz presidente da ADPESP sobre governo Doria

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13 de julho, 2020

O delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno, presidente da ADPESP (Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo), comparou a sensação dos policiais civis com o governo de João Doria (PSDB) com um “banho de água fria” em razão do tratamento dispensado à categoria — e às polícias, de forma geral —, que vive uma crise provocada por baixos salários, sobrecarga de trabalho e aumento da alíquota de impostos, ocorrida após a aprovação da reforma previdenciária dos servidores públicos paulistas.

“Ele afirmou que os policiais paulistas seriam os mais bem pagos da federação. Já no final do ano passado, anuncia aumento pífio de 5% que representou literalmente um balde de água fria. A sensação é de um filme que já vimos muitas vezes e que não termina bem. Tudo não passa do campo da retórica para o campo da ação”, criticou o presidente da ADPESP.

A metáfora empregada pelo delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno revela um sentimento de profunda insatisfação de boa parte dos servidores da instituição que, segundo ele, está “desmoralizada” pelos piores salários da federação e necessitada da implementação das medidas prometidas pelo governador durante a campanha eleitoral — e reforçadas no início do mandato — para valorizar e fortalecer as forças de segurança.

“A melhor maneira dele [Doria] garantir o bom funcionamento das suas polícias e que os seus policiais ajam de acordo com os direitos humanos é conferir um tratamento digno por parte do governo, dar condição digna de vida e justa valorização para que possam receber do governo aqueles direitos que devem aplicar na sua missão”, enfatizou o delegado.

A reportagem do R7 procurou o governo de São Paulo, nesta sexta-feira (10), por e-mail e telefone, mas não conseguiu contato. O espaço está aberto para manifestação e o posicionamento será adicionado à reportagem.

Efetivo reduzido

O delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno revelou que a defasagem do efetivo da Polícia Civil está em torno de 10 mil servidores e gera sobrecarga em um quadro já desmotivado por outras carências trabalhistas. Para Gustavo Mesquita Galvão Bueno, o cenário atual desencadeia uma espiral de problemas que podem levar o policial civil ao cometimento de atitudes extremadas.

“É um déficit muito grande que faz com que esse policial civil já desmotivado, que ganha mal, não valorizado, tem que, inevitavelmente, trabalhar por dois ou três [funcionários]. Disso, decorrem problemas das mais diversas ordens, até chegar ao mais grave, que é o suicídio. A taxa de suicídio [entre os policiais civis] é maior que da Polícia Militar”, revelou.

De acordo com números repassados pela ADPESP, relativos ao ano de 2019, a taxa média é de 30,3 suicídios para cada 100 mil policiais por ano — três vezes o índice aceitável pela OMS (Organização Mundial da Saúde), que considera situação de epidemia a partir de 10 suicídios a cada 100 mil.

Pandemia

Gustavo Mesquita Galvão Bueno destacou também que o desgaste entre a gestão pública e a categoria aumentou após o início da pandemia do novo coronavírus em razão de ações desencontradas das autoridades do município e do estado de São Paulo, caso do rodízio ampliado de veículos na capital paulista, revogado pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) após não ter proporcionado o resultado esperado, entre outros.

“O policial civil só vem sofrendo e pagando uma conta que não lhe pertence. A Polícia Civil continua trabalhando normalmente [na pandemia]. Não houve contingenciamento e não tem home office. [Os policiais civis] continuam se expondo ainda mais aos riscos já inerentes à função”, frisou o delegado e presidente da entidade de classe.

A demora para a aquisição de equipamentos de proteção individual, criação de barreiras físicas em unidades policiais para evitar o contágio do vírus e a realização de testes em funcionários também gerou cobranças do delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno.

“[Hoje] a testagem é satisfatória, Um pouco lenta, mas esperamos que agora avance com rapidez. Mas sentimos ainda falta de planejamento do governador em relacao à Polícia Civil. Falta maior transparência e maior preocupação com a vida dos policiais. Sugerimos medidas rotineiras e constantes de desinfecção das delegacias, barreiras físicas, algo que depende do governo. Mas nada foi feito”, completou.

De acordo com dados coletados pela Adpesp, foram efetuados 9.902 testes em policiais civis do estado de São Paulo até o dia 30 de junho, sendo 6.408 na capital e outros 1.146 realizados na Acadepol (Academia de Polícia do Estado de São Paulo), localizada na zona oeste paulistana.

As demais cidades paulistas onde foram realizados exames para a detecção da Sars-Cov-2 em policiais civis foram: Sorocaba (228), Campinas (347), Ribeirão Preto (128), Presidente Prudente (224), São José dos Campos (223), São José do Rio Preto: (173), Bauru (148), Piracicaba (146), Guarulhos (5), Araçatuba (94), Santos (122), Osasco (73), Mogi das Cruzes (85), Araraquara (38), São Carlos (67), Botucatu (62), Votuporanga (73), Barretos (21), Registro (51) e Bebedouro (40).

Confira todas os temas abordados na entrevista concedida ao R7 pelo delegado Gustavo Mesquita Galvão Bueno, presidente da Adpesp:

R7 — Qual o sentimento dos policiais civis paulistas em relação à atuação do governador João Doria (PSDB), especialmente em ações tomadas na área da segurança pública?

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — Há uma insatisfação muito grande e decorrente de mais de duas décadas de governantes do PSDB, que enfraqueceram a instituição. Desmoralizaram a Polícia Civil, pagando os piores salários da federação aos seus delegados. O governador Doria assumiu [o mandato] com promessas e compromissos muito claros de fortalecer as forças de segurança, foi eleito nesses pilares. E o que acontece é que, desde a sua posse, não tivemos nada de efetivo em relação ao fortalecimento do ser humano policial. Investir em instalações é importante, mas entendemos que o investimento deve começar na valorização do material humano. Até porque, por meio dessa valorização, teremos uma polícia motivada e que se mantenha na carreira. E isso reflete na qualidade do serviço prestado, na medida que o policial, ao defender o direito do cidadão, tem que se ver nesses direitos. Ele vai estar mais tranquilo para aplicar [as leis] e defender os direitos do cidadão. Ele [Doria] vai reafirmando esse compromisso. E falamos de um período pré-pandemia. Afirmou que os policias paulistas seriam os mais bem pagos da federação. Já no final do ano passado, anuncia aumento pífio de 5% que representou literalmente um balde de água fria. A sensação é de um filme que já vimos muitas vezes e não que termina bem. Tudo não passa do campo da retórica para o campo da ação.

R7 — Quais os principais problemas enfrentados pela categoria, além dos salários considerados baixos?

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — No final do ano passado, se inicia a reforma previdenciária dos funcionários públicos, aprovada no início do ano que, no caso dos policiais civis, eleva a alíquota previdenciária de 11% para 16%. Só aí o aumento foi absorvido. Contando a desvalorização monetária e o período de inflação, podemos concluir que os policiais tiveram um decréscimo [nos vencimentos]. Disso decorre uma insatisfação natural, um sentimento de revolta que reina na classe. Inclusive esse tratamento distinto entre policiais civis e militares. Posteriormente, já [no período] pós-pandemia, tivemos a lei federal aprovada que proíbe para o funcionalismo qualquer aumento de salário por dois anos. O pior não é o congelamento dos salários. Mas essa mesma lei veda a contagem de tempo para muitos direitos trabalhistas.

R7 — Como a pandemia do novo coronavírus atingiu a Polícia Civil?

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — O policial civil só vem sofrendo e pagando uma conta que não lhe pertence. A Polícia Civil continua trabalhando normalmente. Não houve contingenciamento e não tem home office. [Os policiais civis] continuam se expondo ainda mais aos riscos já inerentes à função. Há uma tolerância natural de todos em relação à crise econômica gerada pela pandemia. Entedemos [a necessidade de] arrocho fiscal, déficit nas contas públicas. Mas entendemos que o governador não perca de vista essa promessa de compromisso dele de valorizar a Polícia Civil, que deve priorizar o material humano, que é insubstituível. Esse material continua sendo prejudicado.

Creio que, enquanto policiais civis e cidadãos, acabamos ficando bastante incomodados com a falta de planejamento. Medidas anunciadas que voltaram atrás, como o rodízio de veículos. As medidas são desencontradas e denotam falta de planejamento. No caso da Polícia Civil, graças ao trabalho da Delegacia-Geral, conseguimos nos adaptar. Ampliamos o rol de crimes registrados pela delegacia eletrônica para diminuir o trânsito de pessoas nas delegacias e diminuindo as aglomerações, entre outras medidas. Nós da Adpesp colaboramos com a realização de campanhas de doação de material de proteção individual, vacinação prioritária de gripe, testagem. Precisamos entrar com ação judicial, porque iriam testar somente a PM. A testagem é satisfatória, Um pouco lenta, mas esperamos que agora avance com rapidez.

Mas, sentimos ainda falta de planejamento do governador em relação à Polícia Civil. Falta maior transparência e maior preocupação com a vida dos policiais. Sugerimos medidas desinfecção rotineiras e constantes das delegacias, barreiras físicas nas unidades policiais, algo que depende do governo, mas nada foi feito.

Com relação às barreiras, os policiais tiveram que criar um sistema de barreiras físicas e de proteção sem o devido amparo do governo. O governador deveria mostrar a mesma preocupação com o isolamento social em relação aos seus policiais, cujo serviço preserva a vida em sociedade.

R7 — Outra reclamação recorrente das entidades de classe da Polícia Civil é a defasagem no efetivo da instituição. O problema persiste?

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — Temos um déficit em torno de 10 mil policiais. São 28 mil policiais civis no estado. A contagem do governo exclui os cargos de carcereiro, entre três e quatro mil, que foram extintos. Com os carcereiros, 14 mil é o déficit. É muito grande e faz com que esse policial civil já desmotivado, que ganha mal, não valorizado, tem que inevitavelmente trabalhar por dois ou três [funcionários], com sobre sobrecarga de trabalho. Disso decorrem problemas das mais diversas ordens. Até chegar ao mais grave, que é o suicídio. A taxa de suicídio [entre os policiais civis] é maior que da Polícia Militar. Tem muitos deveres, corre risco de vida e não tem qualquer contrapartida por parte do estado. Não se vê sujeito aqueles direitos [que os cidadãos comuns têm].

R7 — Uma preocupação adicional do governo João Doria seria o crescimento do bolsonarismo nas forças de segurança. O senhor acredita que preferências políticas ou partidárias influenciem o trabalho dos policiais civis de São Paulo?

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — Acredito que todo cidadão tem o direito de ter a sua posição, ideologia político-partidária em relação a este ou aquele governo. É natural do estado democrático de direito e garantido pela Constituição. Os policiais civis, em sua grande maioria, tratam-se de profissionais capacitados, treinados e que atuam sob a estrita observância dos preceitos técnicos. Na atividade, o bom profissional não vai se deixar levar pela sua posição política como cidadão. A grande maioria dos policiais civis atua nesse sentido e exerce a sua missão de preservar vidas, famílias e direitos.

Sinceramente, não acredito que o discurso do governo em relação ao crescimento do bolsonarismo se deva em relação ao trabalho policial. Se existe, é decorrente de uma disputa entre o governador e o presidente da República. Acho inadequado e impróprio considerar que o bolsonarismo dentro das polícias seria responsável por um eventual aumento da violência policial. Discordo dessa afirmação. Doria também fez declarações que poderiam incitar os policiais. Não concordo com que essa alegação do governador de preocupação com o bolsonarismo nas polícias sob o pretexto do aumento da violência.

R7 — O principal receio do governo estadual seria com a possibilidade de desobediência por parte da tropa.

Gustavo Mesquita Galvão Bueno — Aos policiais militares, tradicionalmente, por definição mais de governo, naturalmente cabe um respeito ao comando do governador. Os bons policiais sabem respeitar esse comando e não vão deixar com que esses fatores alterem paradigmas de disciplina dentro da instituição. E vale para a Polícia Civil. Não tenho essa preocupação. Não vejo, seja na PM ou na Polícia Civil, qualquer caso prático de atuação indevida que possa ser relacionada à interferência política de um lado ou outro de outro [governante].

 

Publicado originalmente pelo Portal R7, em 10/07/2020

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