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ADPESP e SINDPESP criticam a postura da “Defenda PM” frente aos furtos em delegacias fechadas de São Paulo

Publicado em: 6 de Ago de 2018

Os presidentes da ADPESP e SINDPESP, respectivamente Gustavo Mesquita e Raquel Gallinati, questionam o posicionamento da “Defenda PM” quanto aos furtos recentes em delegacias fechadas em São Paulo. O artigo foi publicado dia 6 de agosto de 2018, no site do Metrô News. Confira em https://www.metronews.com.br/informe-publicitario/a-raposa-as-uvas-e-a-policia-civil. Veja o texto na íntegra.

“A raposa, as uvas e a Polícia Civil”

“Uma raposa que vinha pela estrada encontrou uma parreira com uvas madurinhas. Passou horas pulando tentando pegá-las, mas sem sucesso algum… Saiu murmurando, dizendo que não as queria mesmo, porque estavam verdes…”

Fábula de Esopo, reescrita por La Fontaine

Causou-nos perplexidade o informe publicitário veiculado no Metrô News intitulado “O vergonhoso furto de delegacias fechadas em São Paulo”, assinado pelo presidente da “Defenda PM”, entidade que, ao contrário do que o nome sugere, parece mais ocupada em atacar a Polícia Civil do que defender a instituição que representaria.

É lamentável que um fato social triste e grave seja utilizado como pretexto para destilar críticas de cunho egoístico e corporativista, fundadas em argumentos edificados pela metade.

Cabe, portanto, esclarecer. Os furtos em questão ocorreram quando as delegacias estavam fechadas, situação que se repete em todo o estado, devido à absoluta carência de pessoal, fruto da falta de investimentos do governo do estado na Polícia Civil há mais de 20 anos.

Tal ousadia derivou não só do sucateamento da Polícia Civil, como também da falha na prevenção criminal, realizada deficitariamente pelas polícias ostensivas – dentre as quais, a Polícia Militar. O crime em questão poderia ter ocorrido na residência de qualquer cidadão. Mas, para regozijo do missivista, aconteceu numa delegacia.

Para ficar apenas na capital paulista, em 2017 foram registradas 608.646 ocorrências criminais. No mesmo período, contudo, foram lavrados 32.616 autos de prisão em flagrante.

Ainda que todos os flagrantes fossem apresentados pela polícia ostensiva estadual – também o são pela Polícia Civil e Guarda Civil Metropolitana -, no cômputo estatístico, apenas 5,35% dos crimes registrados foram evitados pelo policiamento preventivo.

No mesmo período, a Polícia Civil, com um efetivo três vezes menor que o da PM, instaurou 102.888 novos inquéritos policiais. Ou seja, mesmo diante da falta de investimentos e valorização, a Polícia Civil do Estado de São Paulo segue fazendo muito pela população.

Certamente, a prevenção de crimes melhoraria de imediato se fossem destinados ao patrulhamento ostensivo os policiais militares desviados de suas funções para compor o corpo musical, chamado de “coral militar”, do serviço de saúde específico para militares, dos serviços religiosos alcunhados de “capelaria militar”, daqueles que elaboram a folha de salários fazendo as vezes de órgão fazendário, dos que estão realizando serviço de segurança no interior dos fóruns, promotorias, gabinetes de políticos, órgãos do poder executivo e poder legislativo.

De se ressaltar, também, os privilégios descabidos, como uma Justiça própria e exclusiva, das mais caras do mundo, para julgar contingente de militares que não chega ao número de moradores de uma pequena comarca do interior. E agora deseja avançar nos primados democráticos e, ao arrepio da Constituição Federal e das normas internacionais de direitos humanos, almeja julgar militares estaduais em caso de crimes comuns graves, como homicídios e a famigerada “resistência seguida de morte”.

Constata-se, assim, a ineficiência e inadequação do modelo atual de polícia ostensiva militarizada, que privilegia apenas uma pequena casta da corporação, enquanto a grande maioria – os praças – sofrem com a rigidez e o autoritarismo de um regramento jurídico voltado para tempos de guerra e incompatível com um modelo de segurança pública cidadã.

Já passou da hora de cada instituição policial assumir seu papel constitucional. Integração é sinônimo de respeito à tarefa do outro, e não o avanço atabalhoado sobre deveres alheios. Quem cumpre eficientemente sua missão já merece, por si só, o reconhecimento social dos verdadeiros destinatários dos serviços policiais: a população.

Gustavo Mesquita Galvão Bueno – Presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo

Raquel Kobashi Gallinati – Presidente do Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo

INFORME PUBLICITÁRIO